quinta-feira, 26 de junho de 2014

Narradores do eu de fora

 Um especial amigo começou seu devaneio, que passou a ser também de todos nós ali presentes, com a seguinte afirmação: "O homem pisou na Lua!!!"
Seus olhos brilhavam, repletos de toda a jovial esperança presente em sua alma. Ele explicou a velocidade da luz e falou da distancia das estrelas, concluiu que tudo era grandioso de mais, que o infinito ainda não era compreendido. E por ultimo deixou escapar "Adão e Eva nunca existiram". Deixando transparecer um rompimento, não com Deus, mas com a religião que por tanto tempo o aprisionou.
 Encontro um senhor na fila do banco que começa a conversa dizendo: "Falam ter tanta tecnologia e estamos aqui nessa fila. Depois ainda querem me fazer crer que pisaram na Lua"
 Sua fala era ponderada, baixa e linear. Ele pouco ouvia, parecia sentir-se na obrigação de me contar sua verdade. Sua verdade: Houvera uma conspiração. "O homem jamais foi a lua. Nem os celulares que estão a baixo dos satélites funcionam, imaginem o que está acima deles?! Como poderiam ter televisionado algo assim?".
 Fomos encaminhados para setores diferentes, e ao terminar o que tinha de fazer e me ver sentada ainda esperando minha vez, ele reservou um tempo da sua existência para dar melhor conclusão à conversa. Me disse que a lua era a polaridade oposta do sol, assim sendo gelo, enquanto o sol era fogo, e que obviamente tinha luz própria. "Pois Deus disse - que durante o dia se faça a luz e que,pela noite, a luz menor se faça!".
 Finalmente ele me falava do que queria falar: de Deus. E então me deu direito a resposta, mas como esperado minha resposta pouco imprimiu em sua reflexão ou fala.
 Seus olhos brilhavam o orgulho de carregar a verdade. Ele se julgava sabido, por não se deixar enganar.

 Meus olhos carregam a dúvida. Como a dúvida pesa... Assim por vezes descanso na certeza da fé, noutras, na incerteza da infinitude, e então volto a duvidar, e assim, enquanto não me ajusto e insisto em minhas próprias polaridades, vou me desajustando em mim mesma e no mundo, e me fazendo ouvindo das mais variadas facetas de mim mesma que encontro nas falas e rostos e olhos alheios.
 
 Que a vida que pulsa em mim, seja a vida que pulsa no mundo. Que o mundo continue a pulsar vida em mim. Que o mundo continue e eu passe, como tudo do mundo que passou por mim e me fez deixar de ser eu para ser outra mesma eu. 
  

quinta-feira, 29 de maio de 2014

Clenil

 A falta de ar que não faltara, por nunca ter sido mais que falta
A falta de ar que tomou lugar do desejo e sufocou
A mesma que confortou, conformou, confirmou
Enquanto os pulmões imploravam por ar.

A falta de ar chegou a definir
Condenou aos cantos, à sombra
Tirou enfoque, limitou o brilho, escondeu
A falta de ar não faltou

A falta de ar fazia falta quando nada faltava
Fazia diminuir o passo quando a corrida, promissora
Abandonar a quadra quando o time, ganhando
Atrasar para perdoar o bom desempenho

A falta faltou
Faltei eu
Falhou a tentativa de faltar
Completou
E agora?
A tua tão conhecida falta está indo embora.
Exija mais de teus pulmões, eles saberão o que é mais Ar!


terça-feira, 15 de abril de 2014

Transformações

 Engraçado! Jamais pensei ser possível vivenciar tantas mudanças. Jamais me pude imaginar numa vivência tão amorosa desta lapidação do eu. Sempre a pensei possível, mas a sentir na concreta experiência tem sido algo único. Muita coisa em minha vida mudou, as minhas relações foram se tornando melhores, minha percepção de mim se tornando mais real, e eis que a parte mais bela e difícil foi tomando forma de maneira tão sutil.
 Ao conviver, e tentar ouvir melhor, ver melhor e aprender, vim desenvolvendo uma faceta do sentimento humildade nunca antes atingida por mim. Passei a perceber melhor minhas falhas, meus buracos, e meus desleixos. Fui percebendo o quão minha imperfeição é parte importante da perfeita experiência de existir como sujeito protagonista da própria história. Assim, tenho vindo me descascando de mim, e derrapando nas curvas das minhas próprias incoerências, ando me confundindo com o outro, me perdendo na dimensão solitária dos meus devaneios, me encontrando capaz, finalmente capaz de modificar o meu eu. Eu ando andando!
 E ela por perto, me amando, me ouvindo, respeitando, e por simplesmente ser ela e estar ao meu lado, me transformando de maneira que jamais possível sem ela ao meu lado!

domingo, 30 de março de 2014

He fell!

 Contrário ao que todos diziam, possível ele se encantou pelo caos e se propôs o descontrole. Hesitou até onde seus freios o permitiram, listou os motivos pelos quais devia se impedir tal loucura, e também os motivos que levariam a falência tamanho investimento. Ele se revestiu de probabilidades ruins, enxergou apenas os defeitos e chorou a impossibilidade de vida.
 Furação, tornado, ventania, vento, brisa, sopro... O sopro dela o levou dali, e o fez cair sentado em seu colo.
 Ele não pode mais evitar, se jogou torto no seu amor falho, incerto, quanto ao certo, errado. Se jogou no que não fazia sentido, apenas sentido, sentiu! Sentiu o toque, sentiu o cheiro, sentiu o calor, sentiu a falta, sentiu o tom, sentiu o que sentiu, sem saber sentir!

     Mesmo os que mais falam do amor, hora são emudecidos por ele!

Portas

Tem portas que não se pode esperar abrir, algumas não se tem nem mesmo como bater!
 Existem barreiras que, mesmo com tudo aproximando, simplesmente distanciam; Existem verdades que de tão cristalizadas se tornam as mais bizarras mentiras, mas ainda assim intransponíveis.
 É irônico como meu olhar se negou a enxergar, por tanto tempo, que o amor muitas vezes não é o suficiente. E negou ainda que por tantas vezes me fora negado a oportunidade de amar, simplesmente por ser diferente.
 Sem ter consciência dessas vivencias, sentia apenas a dor que elas me causavam, e com o tempo essa dor foi tendo corpo e um dia percebi sua fonte. Mas habilidade impar que tenho eu em fingir que é melhor, fui acreditando que era eu quem queria muito espaço, que era eu quem não me contatava, fui me encolhendo num canto, enquanto via as portas fechadas e não tinha condições de tentar, novamente, bater.
 A dor foi sendo ouvida, ao ouvi-la não mais pude negá-la. E então agi, encarei, enfrentei. Encontrei portas que achava que estariam impossibilitadas de se abrirem entreabertas, já a minha espera, portas que adentrei e fui muito bem recebida, mas a porta que eu julgava mais importante estava completamente trancada.
 Lamentei, chorei, desisti. Não valeria a pena esperar, sem jamais saber se a porta abriria. Sabia merecer bem mais... Minha porta estava aberta a tanto tempo, então parti com a minha porta aberta em busca de algo outro.
  Nesse meio tempo me apropriei e também anestesiei minha dor. Comecei a achar que talvez fosse eu também a causadora das portas que me fechavam, que de alguma forma eu buscava portas que estariam fechadas, e ainda acho.... Não sei porque... Isso sequer me faz sentido racional. Mas, é o que existe.
 Me vejo tentando ponderar, tentando respeitar, entender, e dar tempo ao tempo. E o que me faz tentar mais e melhor é o fato de que vejo, desta vez, a principal porta aberta. E mais, vejo também ela batendo na minha porta e esperando ela se abrir... Temos descoberto nossos mundos, e posso dizer que seu mundo me é incrível.

quinta-feira, 27 de março de 2014

--_--_--_--_Morte!

Eu sei que irei morrer!
Caminho para o precipício, muda. Posso ouvir apenas meu coração e as folhas secas, que piso com pés descalços. Não ouço mais meus pensamentos, eles se foram de mim, e agora me resta apenas o vazio de não se saber.
 Não choro, são as lágrimas que vazam de meus olhos inchados e cansados das tantas noites mal dormidas. Sigo em passos lentos de quem não tem outra escolha a não ser ser.
 Paro na beira do penhasco. Não há quem possa me ouvir, me ver, muito menos me tocar. Agora sou apenas eu e a crua natureza. Sei que é este o caminho certo, o caminho que me colocará de fato em contato com a vida. O difícil é ter coragem para viver, antes da vida, a morte.
 Diante dos últimos 30 centímetros de chão sob meus pés, exito entre as escolhas de dar apenas um passo ou saltar rumo ao vazio do ar. Meu corpo apático decide por mim, dando meu último passo, e então despencando meu corpo desfalecido no vazio do nada.
 Morro!
E tento renascer na esperança de adquirir asas, ou mesmo escamas que me ensinem outra forma de me locomover!