segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Viu, o por-do-sol

Dois corpos nus
Ao horizonte, o oceano.
Em sintonia, as ondas se fazem nos corpos
Os corpos fazem as ondas
O barco, apenas acompanha as vibrações.

Curvas, Vento, Som

Cabelos longos, corpos morenos, delicados e femininos
Despiram-se um para o outro
Mas foi o por-do-sol quem assistiu
Ouviu os mais livre gritos do gozo
Corpos em tempestade agitada e incontível

Mãos, línguas, lábios inquietos
Suor, gemidos, palavras tremulas


O por-do-sol não foi lembrado, não foi exaltado
Naquele longo momento nenhum Deus existiu que não mulher,
Natureza suprema, só a delas: Ali, Deusas!


quinta-feira, 25 de setembro de 2014

sábado, 13 de setembro de 2014

FEIURA

 Nos acostumamos a falar apenas das flores e dedicar aos espinhos apenas o alerta. Nos acostumamos a falar do sol, raramente mencionando a sombra. Nos acostumamos a falar de fora e não de nós.
 Ah... Tanta coisa boa para se falar, então porque falar da escuridão, da sombra, daquilo desagrada, desapaixona, desencanta? Principalmente se tudo isso for seu, for meu...
 Engulo o medo que tenho de desencantar, desapaixonar. Engulo o receio de mostrar-me frágil, e mais uma vez falo de mim, mas na necessidade de expressar o que me deprime, me desencoraja, me amedronta e me envergonha em mim mesma.
 Estou sempre atrasada. Sinto como se estivesse correndo atrás da vida desde os meus 15 anos de existência. Sinto meus músculos fortalecidos, mas não adianta. É como se eu acreditasse que agora corro apenas para não morrer e não mais para chegar em algum lugar, ou nem mesmo para acompanhar. Minhas pernas são fortes, mas apenas sobrevivem.
 Tenho dificuldades com coisas simples, que a maioria das pessoas ao meu redor parecem fazer com certa simplicidade, porém são pra mim, confusas, não óbvias... Me sinto emburrecida numa vida repleta de burrices.
 Sinto potência em mim, mas não tenho a menor ideia de fazê-la existir. Eu vejo a semente, mas não sei como regá-la. Tenho uma constante vontade de desistir... desistir de tudo, do mundo, de mim. Penso de mais, não faço muito, se faço muito comumente de maneira insuficiente.
 Ando, continuo andando, mas ando tão cansada de viver essa adolescência tardia, repleta de revoltas internas e com o mundo, nessa briga por individualização, que ainda se pauta nos rostos alheios para tentar encontrar o seu próprio....
 Algumas pessoas me olham e me admiram, acham que sou boa em algo, acham que sou uma pessoa determinada, forte. Quanta ilusão. Eu apenas as amo. Apenas. E por amá-las digo a elas de suas forças quando elas parecem perdidas, as abraço sempre com amor e carinho sincero e tento sempre as ouvir com cuidado, para saber devolver a elas suas próprias.
 Muitas vezes, e acho que desde muito criança, desejei que o amor fosse suficiente para se viver. Na minha inocência infantil amava as plantinhas, os animaizinhos, as pessoas e me perguntava por que os policiais e os bandidos matavam, se não fazia sentido nenhum. Cresci, vi maldade no mundo, mas ainda não compreendo o desamor. Só que ainda não sei ser forte em mim, não sei ir e realizar a vida, apenas sei ser com o outro....
 Claro, realizei coisas importantes em minha vida, a minha escuridão não se mostra externamente, ela mora aqui dentro, no meu saber sobre mim mesma, na minha tristeza, na minha impotência. Invejo, muito sinceramente, as pessoas que sabem que são boas em algo que se dá dinheiro e garante sua sobrevivência nessa vida concreta e material. Invejo também aqueles que se sabem bons e apenas. Mesmo os que sabem disso apenas num processo de negação, causam em mim certa inveja e admiração...
 Termino esse texto, sem mesmo finalizá-lo, assim como se termina qualquer processo de catarse.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Qual a incoerência da coerência? Qual a insanidade da mente sã?
Talvez um deslize no tempo, um rompante de emoção... O querer dizer sim quando se diz não, o corpo que pede mais quando a cabeça já decidiu partir... A insanidade vivida na felicidade que persiste na tristeza majoritária, ou a tristeza que restante ainda no êxtase do alegramento.
 Não tenho tido paciência para o jogo de esconde-e-esconde. Tenho percebido minha quase nula capacidade de insistir mais que se revele o que se insiste em esconder. E quando se diz pelas metades, pelas bordas e se fala, como numa narração descritiva, científica e distante dos fatos, me toma, a angustia de quem quer saber, mas apenas sabe que não saberá.
 Não me é confiado. Não saberei... jamais saberei... É essa angustia que me faz precipitar, caindo na pergunta ansiosa que, muitas vezes, em precipício próprio finda-se. Essa angustia que tantos dos nossos diálogos já matou, essa exata angustia que é lida também como desentendimento.
 Esse tal desentendimento parece ter sido tudo que aprendi. Aprendi e ainda venho aprendendo a desentender. Pois tudo que for dado, será tirado. Apenas aquilo que nunca foi teria condições de ser. Somos um nada, pertencemos a ninguém, e morremos na eternidade!

Encontros Bons Encontros

  Decidi ir. Lá me senti solitária.
Mas minha solidão foi diferente de todas antes vividas, eu estava recheada de mim!
Faltou o abraço conhecido
Sobrou abraços novos, que muitas vezes inseguros, mas bastante acalentadores
Faltou filosofia barata e profunda, daquelas que só na intimidade se dá conta
Sobrou conversas descontraídas de corredor, enfeitadas por sorrisos, e pares de olhos que se enxergavam e trocavam afeto descomprometido
Faltaram  nomes conhecidos
Sobraram cujos nomes menos importava que a intensidade e a boa vontade de saborear minutos caros de trocas humanas baratas - de onde veio, fala, gosta -

Fui. Desconstruída de mim, sem rumo e com pouca pretensão, eu fui. Finalmente descobri a delicia do encontro descompromissado, da troca simples, do estar em companhia de si mesmo e assim se fazer em companhia do mundo!

Foram tantos rostos, tantos corpos, foi tanto, que meus pensamentos perderam forma e ganharam leveza. E pude fazer o improvável, pois foi pensando que meditei. Foi pensando, sentindo, experienciando que me senti transcender aquilo que a segundos atrás eu era e não mais sou! Estou.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Narradores do eu de fora

 Um especial amigo começou seu devaneio, que passou a ser também de todos nós ali presentes, com a seguinte afirmação: "O homem pisou na Lua!!!"
Seus olhos brilhavam, repletos de toda a jovial esperança presente em sua alma. Ele explicou a velocidade da luz e falou da distancia das estrelas, concluiu que tudo era grandioso de mais, que o infinito ainda não era compreendido. E por ultimo deixou escapar "Adão e Eva nunca existiram". Deixando transparecer um rompimento, não com Deus, mas com a religião que por tanto tempo o aprisionou.
 Encontro um senhor na fila do banco que começa a conversa dizendo: "Falam ter tanta tecnologia e estamos aqui nessa fila. Depois ainda querem me fazer crer que pisaram na Lua"
 Sua fala era ponderada, baixa e linear. Ele pouco ouvia, parecia sentir-se na obrigação de me contar sua verdade. Sua verdade: Houvera uma conspiração. "O homem jamais foi a lua. Nem os celulares que estão a baixo dos satélites funcionam, imaginem o que está acima deles?! Como poderiam ter televisionado algo assim?".
 Fomos encaminhados para setores diferentes, e ao terminar o que tinha de fazer e me ver sentada ainda esperando minha vez, ele reservou um tempo da sua existência para dar melhor conclusão à conversa. Me disse que a lua era a polaridade oposta do sol, assim sendo gelo, enquanto o sol era fogo, e que obviamente tinha luz própria. "Pois Deus disse - que durante o dia se faça a luz e que,pela noite, a luz menor se faça!".
 Finalmente ele me falava do que queria falar: de Deus. E então me deu direito a resposta, mas como esperado minha resposta pouco imprimiu em sua reflexão ou fala.
 Seus olhos brilhavam o orgulho de carregar a verdade. Ele se julgava sabido, por não se deixar enganar.

 Meus olhos carregam a dúvida. Como a dúvida pesa... Assim por vezes descanso na certeza da fé, noutras, na incerteza da infinitude, e então volto a duvidar, e assim, enquanto não me ajusto e insisto em minhas próprias polaridades, vou me desajustando em mim mesma e no mundo, e me fazendo ouvindo das mais variadas facetas de mim mesma que encontro nas falas e rostos e olhos alheios.
 
 Que a vida que pulsa em mim, seja a vida que pulsa no mundo. Que o mundo continue a pulsar vida em mim. Que o mundo continue e eu passe, como tudo do mundo que passou por mim e me fez deixar de ser eu para ser outra mesma eu.